ANTONIO CLAUDIO LAGE BUFFARA - MATEMÁTICA AO ALCANCE DAS MÃOS: O USO DOS DEDOS FACILITA O APRENDIZADO

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Há não muito tempo atrás se acreditava que o uso dos dedos no raciocínio matemático era prejudicial. A prática impediria o pleno desenvolvimento da capacidade de abstração lógica, defendiam pedagogos e mesmo alguns professores de matemática. A situação hoje é diferente. Em 2015, um estudo de Ilaria Berteletti e James R. Booth, vinculados à Universidade de Berkeley, apontou importante descoberta.

Por meio de suas pesquisas em uma região específica do cérebro, dedicada à percepção e à representação dos dedos, conhecida como área ‘somatossensorial’ das extremidades das mãos, percebeu-se que a mesma era utilizada mesmo que crianças não utilizassem efetivamente os dedos para contar.

A descoberta foi um avanço. Isso porque fomos capazes de perceber que a prática de utilizar as mãos para contar, em vez de um estorvo para o desenvolvimento cognitivo ligado à abstração tipicamente matemática, é, na realidade, um complemento daquele processo cerebral. Com base nisso, viemos aqui defender a prática como sendo constituinte da formação da base necessária para o avançar na disciplina. A partir dela, aliás, pode-se ir além da mera contagem, chegando-se a resolver problemas relativamente mais complexos.

Vejamos. As duas mãos, geralmente com cinco dedos em cada, possibilitam inicialmente, durante a aquisição da linguagem alfanumérica, a contagem até dez. Dessa forma, a educando mobilizando competências importantes como a articulação viso-motora-auditiva, realizando, em outro nível cognitivo, a chamada correspondência biunívoca e processos de ordenação e inclusão. - estruturas lógicas que devem ser trabalhadas e são determinantes na construção do conceito numeral.

A partir daí, relações mais complexas se tornam possíveis de serem efetivadas nas sinapses. São exemplos as correlações que ordenam e estabelecem os dedos para grupos de dezenas, centenas ou milhares. Os dedos, assim, tornam-se instrumentos similares ao ábaco – tão importante no desenvolvimento da história da matemática.

As pesquisas que avançam na área a cada vez mais desmantelam a falácia que proscrevia a utilização dos dedos no processo de contagem. De fato, não há qualquer indício científico de maiores capacidades matemáticas por aqueles que “contam de cabeça” – inclusive porque, como já vimos, mesmo estes mobilizam a área somatossensorial dos dedos.

Por isso, um recado aos pais e professores que lecionam matemática: estimulem as brincadeiras matemáticas com o uso dos dedos. É certamente uma potente ferramenta de ensino-aprendizagem.

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